Arqueologia em Conexão
  Banco de Teses e Dissertações


    Meus agradecimentos aos colegas Scheel-Ybert e Mikosz que contribuiram para dar início a esta seção.
 



ZANETTINI, Paulo. A Calçada do Lorena: o caminho para mar. Dissertação de Mestrado. Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (Margarida Davina Andreatta, orientadora), São Paulo, 145 pp-A3 (110 fotografias/reproduções, 19 mapas, duas tabelas), 1998.
 
Resumo:
 
- O sítio histórico

A Calçada do Lorena, denominação atribuída ao trecho pavimentado do antigo Caminho do Mar em fins do século XVIII, está situada na porção sudeste do Estado de São Paulo (município de Cubatão), no interior do Parque Estadual da Serra do Mar.
Entre 1989 e 1992, a estrada já desaparecida foi identificada e submetida a uma extensa radiografia arqueológica que forneceu os insumos necessários para o desenvolvimento de um projeto de restauro e revitalização, assegurando-lhe, assim, um novo destino cultural, sendo visitada por milhares de usuários anualmente.
Por sua vez, as obras de retificação e calçamento na serra tiveram início por volta de 1790, conforme projeto do Real Corpo dos Engenheiros de Lisboa. Concluída em 1792, a estrada foi dotada de um novo traçado, além de um engenhoso sistema de drenagem, eliminando os tradicionais obstáculos oferecidos durante a transposição do maciço. Estabelecia-se a partir de então, uma via eficaz de circulação e comunicação entre o litoral e o planalto, garantindo um fluxo contínuo de mercadorias produzidas no sertão da capitania com destino ao mercado metropolitano, a partir do porto de Santos. Vencida a Serra de Paranapiacaba, a Calçada buscava o rumo da vila de São Paulo de Piratininga, a histórica "Boca do Sertão", dali conectando-se a outras regiões, sobretudo, a do "Quadrilátero do Açúcar" (Sorocaba, Itú, etc). Com esse feito, a Coroa portuguesa retomava o controle sobre essa região da colônia.
 
- A pesquisa arqueológica

Estruturada sob a forma de contrato, a pesquisa arqueológica na Calçada, embora, dotada de um caráter eminentemente arqueográfico, no caso, orientada para o resgate de informações relativas a forma física original do monumento e processos que interagiram para a sua descaracterização, garantiu o estabelecimento de um profundo diálogo com cotidiano de sua produção, ou ainda, com o capítulo da história da técnica e engenharia luso-brasileira, escassamente contemplada nas demais fontes documentais. Nesse caso, a arqueologia, longe de constituir-se em mera ilustração daquilo que foi escrito e descrito, ocupou um papel preponderante, acessando e recuperando informações inéditas e indispensáveis ao desenvolvimento de um projeto de restauro consonante com as políticas e diretrizes oferecidas pelos documentos internacionais de preservação e revitalização de monumentos históricos.
Assim, foram estabelecidos os seguintes objetivos para a pesquisa arqueológica:
1)A identificação do traçado da via principal; suas ramificações, artérias principais, vias secundárias, variantes e entroncamentos; 2)A análise das técnicas e soluções adotadas na construção e, posteriormente, na manutenção, tendo em vista os diversos sub-compartimentos topográficos da paisagem; 3)A identificação de jazidas, processos de extração de matérias-primas, e, obviamente, dos padrões de manufatura presentes tanto nas obras de infra-estrutura (cortes, aterros, tratamento de sub-bases, estruturas de proteção, contenção, drenagens) como no calçamento; 4)A reconstituição do sistema de drenagem e escoamento das águas pluviais. Em suma, cabia à pesquisa arqueológica a releitura do projeto originalmente concebido à luz da engenharia lusitana e de sua adaptação às condicionantes ambientais e humanas verificadas em território colonial
A investigação também contemplou a busca, cadastro e caracterização de estruturas e assentamentos decorrentes da produção/utilização/manutenção da via, tais como unidades de apoio às obras ou destinadas à fiscalização e controle dos usuários (pousos, paradeiros, pedágios, etc).
Por outro lado, a natureza da pesquisa e a especificidade do sítio histórico-arqueológico (estrutura linear, com extensão de 3 quilômetros e 300 metros de desnível) demandou a busca de metodologias de recobertura e técnicas de leitura não-invasivas do subsolo, o desenvolvimento de sistemas de transferência de dados e resultados com a agilidade necessária, de modo a atender às diversas especialidades envolvidas e frentes de trabalho simultaneamente abertas na Serra, inclusive, configurando uma intervenção controlada, adequada à área de preservação.
Por suas peculiaridades, o sítio histórico-arqueológico da Calçada, apto ao pisoteio e trânsito, permitiu a instauração de um amplo programa de visitação à pesquisa e obras, garantindo o acesso da comunidade e uma inovativa experiência de caráter interativo com respeito ao resgate e revitalização de um monumento, levando-nos a refeltir a respeito da dimensão social do trabalho de arqueologia e seu papel perante a educação pública.
Assim, julgamos procedente retomar essa experiência vivenciada na Serra do Mar há quase uma década retomando-a na forma de dissertação, propondo novos questionamentos e objetivando a reconstituição do ciclo integral de vida da estrada-artefato, haja visto que a arqueologia devotada à restauração de monumentos é, por vezes, tratada como uma "arqueologia menor" ou de "baixo alcance" teórico, perspectiva, a nosso ver, bastante seletiva e redutora.
Ainda nos propusemos à confrontar os resultados alcançados com dados obtidos em outros sítios análogos - alternativas viárias abertas ao longo da Serra, como a Trilha de Paranapiacaba, a Trilha do Ouro (aberta de São José do Barreiro até Mambucaba, em território fluminense), a Trilha do Corisco (ligando Ubatuba/Paraty e algumas de suas ramificações já na planície litorânea), permitindo a inserção do sítio histórico-arqueológico num quadro mais amplo, de caráter regional. Nesse sentido, a abordagem conduziu à elaboração de uma tipologia e cronologia para as obras viárias realizadas ao longo da Serra do Mar, no decorrer do séculos XVI e XIX, contribuindo, inclusive, para um melhor entendimento das especificidades do projeto do Corpo dos Engenheiros.
 
- Os significados da obra
 
As transformações percebidas pelo sistema capitalista no decorrer do século XVIII levaram à redefinição do papel do Estado português no contexto da nova ordem européia, engendrada sob a hegemonia inglesa.
Como reflexo, Portugal passou a rever as formas de domínio e controle sobre seus territórios, sobretudo, em relação à porção centro-meridional do Brasil, criando condições favoráveis para a dinamização e reinserção da Capitania de São Vicente como produtora de bens agrícolas no bojo do sistema mercantil global, sob o desígnio do Marquês de Pombal. Medidas políticas drásticas e restritivas foram sancionadas pela Coroa, como por exemplo, em 1789, a imposição do monopólio de embarque do açúcar pelo porto de Santos, constituindo esse um exemplo patente da mudança de ótica em relação à essa região, além de outros privilégios como a dotação orçamentaria que assegurou a implantação da infra-estrutura necessária à circulação e exportação do açúcar produzido no interior, envolvendo a melhoria/abertura de novos caminhos e estradas. O calçamento do Caminho do Mar, originalmente uma trilha indígena usada para deslocamentos sazonais entre o litoral e o planalto paulista, constituiu o exemplo mais flagrante e significativo desse processo
Todavia, a Calçada do Lorena, vista como produto e vetor dos tempos de glória dos comerciantes e conductores de açúcar paulistas, tornou-se obsoleta após seis décadas de uso intenso, face à abertura de novos e mais modernos acessos na Serra do Mar. Em fins do século XIX, a estradinha íngreme e sinuosa concebida para tropas sucumbiu à concorrência de vias carroçáveis e da ferrovia, ficando reduzida à mero suporte para a passagem de linhas de transmissão, passando por intervenções (implantação de postes e obstrução de escoamentos), que provocaram a descaracterização, soterramento e desaparição.
Assim, a Calçada do Lorena, enquanto obra de engenharia civil do final do século XVIII, fruto das necessidades de um Estado reorganizado, ao mesmo tempo que atendia aos anseios de uma camada emergente - a dos negociantes de açúcar, traduzia e representava a vitória dos ideais e valores emergentes gestados numa Portugal ilustrada.
Sob o manto pombalino, o Homem lusitano conseguia provar e garantir sua supremacia sobre a natureza em terras longínquas, fato simbolicamente expresso nas obras realizadas na Serra do Mar. A civilização saia vitoriosa nessa batalha, sendo a estradinha celebrizada nos escritos de estudiosos e viajantes que por ela transitaram como Mawe, Kidder, Saint Hilaire, Spix e Martius, dentre outros.


SCHEEL-YBERT, R. Stabilité de l’Écosystème sur le Littoral Sud-Est du Brésil à l’Holocène Supérieur (5500 - 1400 ans BP). Les Pêcheurs-Cueilleurs-Chasseurs et le Milieu Végétal : Apports de l’Anthracologie. Thèse de Doctorat. Université Montpellier II, Montpellier, France. 3 volumes. 520 pp. (Texte 245 p.; Atlas anthracologique 114 p. + 1 cdrom; Annexes 161 p.),  1998.

Resumo:

        Estabilidade do Ecossistema no Litoral Sudeste do Brasil durante o Holoceno Superior (5500 - 1400 anos BP) – Os Pescadores-Coletores-Caçadores e o Meio vegetal: Aporte da Antracologia.
        A análise antracológica de sete sambaquis do litoral do Estado do Rio de Janeiro permitiu a reconstituição do paleoambiente vegetal nessa região e a avaliação das interrelações entre ocupação humana e meio ambiente. Nossos resultados demonstram que, apesar de algumas variações, principalmente da vegetação do mangue, e não obstante o fato de que oscilações climáticas tenham sido notadas, nenhuma modificação importante afetou o ecossistema vegetal durante toda a segunda metade do Holoceno. Isto é devido, provavelmente, ao caráter edáfico dos ecossistemas costeiros. Diversas fisionomias da restinga estavam presentes; a floresta de restinga era muito mais abundante do que atualmente. A mata seca dos costões rochosos de Cabo Frio era igualmente bem representada, assim como, mais para o interior, a Mata Atlântica.
        Nossas interpretações são baseadas em análises fatoriais de correspondência aplicadas aos espectros antracológicos e aos resultados de levantamentos fitossociológicos atuais. A validade da amostragem foi testada pelo estudo de curvas de saturação e de curvas de Gini-Lorenz. A determinação dos fragmentos de carvão foi facilitada pela constituição de uma importante coleção de referência e pela elaboração de um programa de computador especialmente projetado para a identificação antracológica, acoplado a um banco de dados anatômicos de carvões atuais e arqueológicos.
        A estabilidade do meio ambiente vegetal foi provavelmente um fator determinante na manutenção do sistema sociocultural dos pescadores-coletores-caçadores, contribuindo para a conservação de uma cultura estacionária que se manteve por mais de 6000 anos.
        Nossos resultados permitem também a formulação de uma série de considerações paleoetnológicas com respeito à utilização da madeira e à alimentação dos sambaquieiros. A coleta aleatória de madeira morta fornecia a essas populações a maior parte da lenha utilizada. Contudo, a madeira de Condalia sp era particularmente selecionada, por razões culturais que não é possível conhecer no momento. Este taxon, atualmente raro na restinga, era certamente mais frequente durante o período estudado. A coleta de produtos vegetais era com certeza muito importante para a alimentação dos sambaquieiros. Todos os sítios analisados apresentaram fragmentos de coquinhos carbonizados, sementes e resíduos de tubérculos de monocotiledôneas (provavelmente gramíneas, ciperáceas e carás – Dioscorea sp), estes últimos assinalados pela primeira vez no material proveniente de sambaquis.

PALAVRAS-CHAVE:    Paleoambiente, paleoetnologia, antracologia, arqueobotânica, metodologia, sambaquis, carvões, tubérculos, restinga, mangue, floresta, Brasil.
 



MIKOSZ, A.

Resumo:

        Uma análise dos processos epistemológicos dentro da arqueologia brasileira, tendo em vista a sua utilidade para a Etnohistória" é o título do meu trabalho de graduação apresentado perante o Prof.Karl Wernhart, professor catedrático do Instituto de Etnologia da Universidade de Viena e reitor desta.
        Inicio este trabalho apresentado um resumo de algumas análises já feitas previamente sobre o discurso arqueológico (KHOURI ET ANGENOT 1983, GARDIN ET LAGRANGE 1975, GARDIN 1980, SHANKS ET TILLEY 1980) e após um pequeno capítulo introdutório onde esclareço alguns conceitos necessários à minha análise, apresento o método desta.
        Eu baseio a minha argumentação em dois princípios básicos:
1. que objetos são portadores de mensagens codificadas e organizados, dentro de uma sociedade, em uma "gramática de objetos" (LEACH 1978,18).
2. que o ser humano fundamentalmente procura dar a uma forma um sentido (LEVI-STRAUSS 1977,35).
        Mantendo em vista o ponto 1. pode-se facilmente afirmar que sejam quais forem os esforcos técnicos empregados em uma escavação arqueológica, dos objetos escavados, apenas a função intencional (i.e. a sua finalidade (ver ECO 1977,43-44)) é reconstruível; a sua designação permanece e permanecerá irrecuperável. Esta será entao, de acordo com o ponto 2, reconstruída.
        Analisando o método que a arqueologia usa para esta reconstrução, creio poder reconhecer duas etapas: na primeira, que chamei de "Construção do Objeto Arqueológico", creio poder explicar como que um objeto real será substituído por um ícone (creio ser esta a tradução portuguesa do termo técnico "icon", tal como ele é usado em Semiótica) e então em uma etapa posterior, que chamei de "Produção do Discurso Arqueológico", creio poder mostrar como que estes ícones serão usados como índex de comportamentos sociais das populações pré-históricas.
        Esta "produção do discurso arqueológico" se dá através de dois processos: através do processo da livre dedução e através do processo de dedução acoplada. A diferenca é que nesta segunda se considera o binômio espaço-tempo enquanto que a primeira o ignora completamente. Um exemplo de dedução livre é a a conotação entre prestígio social e oferendas mortuárias que Garcia e Uchoa pretendem estabelecer (GARCIA ET UCHOA 1980,77). Exemplo de dedução acoplada são as tentativas de se estabelecer o areal ocupado por uma cultura através de elementos formais e/ou decorativos (p.e. RÜTHSCHLILLING 1984).
        Analisando os resultados das deduções da arqueologia brasileira pode-se dizerque esta pode ser classificada como uma arqueologia colonialista, na classificação de Trigger (TRIGGER 1984). Isto significa que a  arqueologia brasileira serve indiretamente para justificar as reivindicações de uma parte da população brasileira: da  população branca. Isto pode ser comprovado pois:
    - demonstrando a pobreza tecnológica das populações pré-cabralinas (a arqueologia brasileira ressalta indiretamente o direito, talvez até o dever, que populações tecnologicamente mais capazes têm sobre os recursos naturais (HEREDIA ET BELTRAO 1980; MASI ET ARTUSI 1985);
    - o destaque que o extermínio de populações tecnologicamente menos avancadas recebe dentro da arqueologia brasileira serve para justificar o genocídio da população indígena transformando-o num fenômeno quase natural (MADERSBACHER 1971; SCHMITZ 1981).
        Assim sendo, a Etnohistória, usando os resultados da arqueologia brasileira, iria apenas reproduzir os preconceitos que esta proclama.
        Aqui, deve a Etnohistória procurar desvendar as "gramáticas de objetos" que as populações pré-históricas usaram, caso isto ainda seja possível, usando o conhecimento dos indivíduos que vivem ainda hoje em uma tradição cultural, na qual alguns resquícios daquelas tradições ainda existem. Apenas a partir desta perspectiva se pode ter uma pequena chama de esperança que as deduções da arqueologia vão refletir a vida cotidiana e o desenvolvimento socio-cultural das populações pré-históricas.
        Se tal projeto pudesse tornar-se realidade, a Etnohisória teria contribuído para enriquecer o já imenso tesouro da experiência cultural humana.
 



FRANCO, Teresa C. de Borges. A Pesca na Pré-história: um estudo para o Brasil.                 Dissertação  de Mestrado. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Filosofia e CiênciasSociais, Rio de Janeiro. 208 pp., 1992.

Resumo:

        Provavelmente a pesca é uma atividade tão antiga quanto a caça. Porém, as evidências materiais dessa atividade são de difícil preservação no registro arqueológico. A partir de finais do Paleolítico Superior, essas evidências tornam-se mais concretas, possibilitando um estudo da temática pesca, de modo a inseri-la no contexto de populações pré-históricas.
        A partir da compreensão dos processos relacionados à pesca, foi realizado um estudo do conhecimento necessário ao homem para exercer essa atividade e das técnicas necessárias à exploração desses recursos, sendo o enfoque centralizado nos artefatos e no conhecimento do meio circundante.
        Os dados referentes à pesca são sistematizados para o Brasil, possibilitando uma análise ampla desta atividade, já bastante desenvolvida quando da chegada dos colonizadores europeus.

PALAVRAS-CHAVE:    Pré-história, pesca, técnicas, artefatos, armadilhas, anzóis, litoral, Europa, Brasil.

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