Meus agradecimentos aos colegas Scheel-Ybert e Mikosz que contribuiram
para dar início a esta seção.
A Calçada do Lorena, denominação
atribuída ao trecho pavimentado do antigo Caminho do Mar em fins
do século XVIII, está situada na porção sudeste
do Estado de São Paulo (município de Cubatão), no
interior do Parque Estadual da Serra do Mar.
Entre 1989 e 1992, a estrada já
desaparecida foi identificada e submetida a uma extensa radiografia arqueológica
que forneceu os insumos necessários para o desenvolvimento de um
projeto de restauro e revitalização, assegurando-lhe, assim,
um novo destino cultural, sendo visitada por milhares de usuários
anualmente.
Por sua vez, as obras de retificação
e calçamento na serra tiveram início por volta de 1790, conforme
projeto do Real Corpo dos Engenheiros de Lisboa. Concluída em 1792,
a estrada foi dotada de um novo traçado, além de um engenhoso
sistema de drenagem, eliminando os tradicionais obstáculos oferecidos
durante a transposição do maciço. Estabelecia-se a
partir de então, uma via eficaz de circulação e comunicação
entre o litoral e o planalto, garantindo um fluxo contínuo de mercadorias
produzidas no sertão da capitania com destino ao mercado metropolitano,
a partir do porto de Santos. Vencida a Serra de Paranapiacaba, a Calçada
buscava o rumo da vila de São Paulo de Piratininga, a histórica
"Boca do Sertão", dali conectando-se a outras regiões, sobretudo,
a do "Quadrilátero do Açúcar" (Sorocaba, Itú,
etc). Com esse feito, a Coroa portuguesa retomava o controle sobre essa
região da colônia.
- A pesquisa arqueológica
Estruturada sob a forma de contrato,
a pesquisa arqueológica na Calçada, embora, dotada de um
caráter eminentemente arqueográfico, no caso, orientada para
o resgate de informações relativas a forma física
original do monumento e processos que interagiram para a sua descaracterização,
garantiu o estabelecimento de um profundo diálogo com cotidiano
de sua produção, ou ainda, com o capítulo da história
da técnica e engenharia luso-brasileira, escassamente contemplada
nas demais fontes documentais. Nesse caso, a arqueologia, longe de constituir-se
em mera ilustração daquilo que foi escrito e descrito, ocupou
um papel preponderante, acessando e recuperando informações
inéditas e indispensáveis ao desenvolvimento de um projeto
de restauro consonante com as políticas e diretrizes oferecidas
pelos documentos internacionais de preservação e revitalização
de monumentos históricos.
Assim, foram estabelecidos os seguintes
objetivos para a pesquisa arqueológica:
1)A identificação
do traçado da via principal; suas ramificações, artérias
principais, vias secundárias, variantes e entroncamentos; 2)A análise
das técnicas e soluções adotadas na construção
e, posteriormente, na manutenção, tendo em vista os diversos
sub-compartimentos topográficos da paisagem; 3)A identificação
de jazidas, processos de extração de matérias-primas,
e, obviamente, dos padrões de manufatura presentes tanto nas obras
de infra-estrutura (cortes, aterros, tratamento de sub-bases, estruturas
de proteção, contenção, drenagens) como no
calçamento; 4)A reconstituição do sistema de drenagem
e escoamento das águas pluviais. Em suma, cabia à pesquisa
arqueológica a releitura do projeto originalmente concebido à
luz da engenharia lusitana e de sua adaptação às condicionantes
ambientais e humanas verificadas em território colonial
A investigação também
contemplou a busca, cadastro e caracterização de estruturas
e assentamentos decorrentes da produção/utilização/manutenção
da via, tais como unidades de apoio às obras ou destinadas à
fiscalização e controle dos usuários (pousos, paradeiros,
pedágios, etc).
Por outro lado, a natureza da pesquisa
e a especificidade do sítio histórico-arqueológico
(estrutura linear, com extensão de 3 quilômetros e 300 metros
de desnível) demandou a busca de metodologias de recobertura e técnicas
de leitura não-invasivas do subsolo, o desenvolvimento de sistemas
de transferência de dados e resultados com a agilidade necessária,
de modo a atender às diversas especialidades envolvidas e frentes
de trabalho simultaneamente abertas na Serra, inclusive, configurando uma
intervenção controlada, adequada à área de
preservação.
Por suas peculiaridades, o sítio
histórico-arqueológico da Calçada, apto ao pisoteio
e trânsito, permitiu a instauração de um amplo programa
de visitação à pesquisa e obras, garantindo o acesso
da comunidade e uma inovativa experiência de caráter interativo
com respeito ao resgate e revitalização de um monumento,
levando-nos a refeltir a respeito da dimensão social do trabalho
de arqueologia e seu papel perante a educação pública.
Assim, julgamos procedente retomar
essa experiência vivenciada na Serra do Mar há quase uma década
retomando-a na forma de dissertação, propondo novos questionamentos
e objetivando a reconstituição do ciclo integral de vida
da estrada-artefato, haja visto que a arqueologia devotada à restauração
de monumentos é, por vezes, tratada como uma "arqueologia menor"
ou de "baixo alcance" teórico, perspectiva, a nosso ver, bastante
seletiva e redutora.
Ainda nos propusemos à confrontar
os resultados alcançados com dados obtidos em outros sítios
análogos - alternativas viárias abertas ao longo da Serra,
como a Trilha de Paranapiacaba, a Trilha do Ouro (aberta de São
José do Barreiro até Mambucaba, em território fluminense),
a Trilha do Corisco (ligando Ubatuba/Paraty e algumas de suas ramificações
já na planície litorânea), permitindo a inserção
do sítio histórico-arqueológico num quadro mais amplo,
de caráter regional. Nesse sentido, a abordagem conduziu à
elaboração de uma tipologia e cronologia para as obras viárias
realizadas ao longo da Serra do Mar, no decorrer do séculos XVI
e XIX, contribuindo, inclusive, para um melhor entendimento das especificidades
do projeto do Corpo dos Engenheiros.
- Os significados da obra
As transformações
percebidas pelo sistema capitalista no decorrer do século XVIII
levaram à redefinição do papel do Estado português
no contexto da nova ordem européia, engendrada sob a hegemonia inglesa.
Como reflexo, Portugal passou a
rever as formas de domínio e controle sobre seus territórios,
sobretudo, em relação à porção centro-meridional
do Brasil, criando condições favoráveis para a dinamização
e reinserção da Capitania de São Vicente como produtora
de bens agrícolas no bojo do sistema mercantil global, sob o desígnio
do Marquês de Pombal. Medidas políticas drásticas e
restritivas foram sancionadas pela Coroa, como por exemplo, em 1789, a
imposição do monopólio de embarque do açúcar
pelo porto de Santos, constituindo esse um exemplo patente da mudança
de ótica em relação à essa região, além
de outros privilégios como a dotação orçamentaria
que assegurou a implantação da infra-estrutura necessária
à circulação e exportação do açúcar
produzido no interior, envolvendo a melhoria/abertura de novos caminhos
e estradas. O calçamento do Caminho do Mar, originalmente uma trilha
indígena usada para deslocamentos sazonais entre o litoral e o planalto
paulista, constituiu o exemplo mais flagrante e significativo desse processo
Todavia, a Calçada do Lorena,
vista como produto e vetor dos tempos de glória dos comerciantes
e conductores de açúcar paulistas, tornou-se obsoleta após
seis décadas de uso intenso, face à abertura de novos e mais
modernos acessos na Serra do Mar. Em fins do século XIX, a estradinha
íngreme e sinuosa concebida para tropas sucumbiu à concorrência
de vias carroçáveis e da ferrovia, ficando reduzida à
mero suporte para a passagem de linhas de transmissão, passando
por intervenções (implantação de postes e obstrução
de escoamentos), que provocaram a descaracterização, soterramento
e desaparição.
Assim, a Calçada do Lorena,
enquanto obra de engenharia civil do final do século XVIII, fruto
das necessidades de um Estado reorganizado, ao mesmo tempo que atendia
aos anseios de uma camada emergente - a dos negociantes de açúcar,
traduzia e representava a vitória dos ideais e valores emergentes
gestados numa Portugal ilustrada.
Sob o manto pombalino, o Homem
lusitano conseguia provar e garantir sua supremacia sobre a natureza em
terras longínquas, fato simbolicamente expresso nas obras realizadas
na Serra do Mar. A civilização saia vitoriosa nessa batalha,
sendo a estradinha celebrizada nos escritos de estudiosos e viajantes que
por ela transitaram como Mawe, Kidder, Saint Hilaire, Spix e Martius, dentre
outros.
SCHEEL-YBERT, R. Stabilité de l’Écosystème sur le Littoral Sud-Est du Brésil à l’Holocène Supérieur (5500 - 1400 ans BP). Les Pêcheurs-Cueilleurs-Chasseurs et le Milieu Végétal : Apports de l’Anthracologie. Thèse de Doctorat. Université Montpellier II, Montpellier, France. 3 volumes. 520 pp. (Texte 245 p.; Atlas anthracologique 114 p. + 1 cdrom; Annexes 161 p.), 1998.
Resumo:
Estabilidade
do Ecossistema no Litoral Sudeste do Brasil durante o Holoceno Superior
(5500 - 1400 anos BP) – Os Pescadores-Coletores-Caçadores e o Meio
vegetal: Aporte da Antracologia.
A
análise antracológica de sete sambaquis do litoral do Estado
do Rio de Janeiro permitiu a reconstituição do paleoambiente
vegetal nessa região e a avaliação das interrelações
entre ocupação humana e meio ambiente. Nossos resultados
demonstram que, apesar de algumas variações, principalmente
da vegetação do mangue, e não obstante o fato de que
oscilações climáticas tenham sido notadas, nenhuma
modificação importante afetou o ecossistema vegetal durante
toda a segunda metade do Holoceno. Isto é devido, provavelmente,
ao caráter edáfico dos ecossistemas costeiros. Diversas fisionomias
da restinga estavam presentes; a floresta de restinga era muito mais abundante
do que atualmente. A mata seca dos costões rochosos de Cabo Frio
era igualmente bem representada, assim como, mais para o interior, a Mata
Atlântica.
Nossas
interpretações são baseadas em análises fatoriais
de correspondência aplicadas aos espectros antracológicos
e aos resultados de levantamentos fitossociológicos atuais. A validade
da amostragem foi testada pelo estudo de curvas de saturação
e de curvas de Gini-Lorenz. A determinação dos fragmentos
de carvão foi facilitada pela constituição de uma
importante coleção de referência e pela elaboração
de um programa de computador especialmente projetado para a identificação
antracológica, acoplado a um banco de dados anatômicos de
carvões atuais e arqueológicos.
A
estabilidade do meio ambiente vegetal foi provavelmente um fator determinante
na manutenção do sistema sociocultural dos pescadores-coletores-caçadores,
contribuindo para a conservação de uma cultura estacionária
que se manteve por mais de 6000 anos.
Nossos
resultados permitem também a formulação de uma série
de considerações paleoetnológicas com respeito à
utilização da madeira e à alimentação
dos sambaquieiros. A coleta aleatória de madeira morta fornecia
a essas populações a maior parte da lenha utilizada. Contudo,
a madeira de Condalia sp era particularmente selecionada, por razões
culturais que não é possível conhecer no momento.
Este taxon, atualmente raro na restinga, era certamente mais frequente
durante o período estudado. A coleta de produtos vegetais era com
certeza muito importante para a alimentação dos sambaquieiros.
Todos os sítios analisados apresentaram fragmentos de coquinhos
carbonizados, sementes e resíduos de tubérculos de monocotiledôneas
(provavelmente gramíneas, ciperáceas e carás – Dioscorea
sp), estes últimos assinalados pela primeira vez no material proveniente
de sambaquis.
PALAVRAS-CHAVE: Paleoambiente,
paleoetnologia, antracologia, arqueobotânica, metodologia, sambaquis,
carvões, tubérculos, restinga, mangue, floresta, Brasil.
Resumo:
Uma análise dos processos
epistemológicos dentro da arqueologia brasileira, tendo em vista
a sua utilidade para a Etnohistória" é o título do
meu trabalho de graduação apresentado perante o Prof.Karl
Wernhart, professor catedrático do Instituto de Etnologia da Universidade
de Viena e reitor desta.
Inicio este trabalho apresentado
um resumo de algumas análises já feitas previamente sobre
o discurso arqueológico (KHOURI ET ANGENOT 1983, GARDIN ET LAGRANGE
1975, GARDIN 1980, SHANKS ET TILLEY 1980) e após um pequeno capítulo
introdutório onde esclareço alguns conceitos necessários
à minha análise, apresento o método desta.
Eu baseio a minha argumentação
em dois princípios básicos:
1. que objetos são portadores de mensagens codificadas e organizados,
dentro de uma sociedade, em uma "gramática de objetos" (LEACH 1978,18).
2. que o ser humano fundamentalmente procura dar a uma forma um sentido
(LEVI-STRAUSS 1977,35).
Mantendo em vista o ponto
1. pode-se facilmente afirmar que sejam quais forem os esforcos técnicos
empregados em uma escavação arqueológica, dos objetos
escavados, apenas a função intencional (i.e. a sua finalidade
(ver ECO 1977,43-44)) é reconstruível; a sua designação
permanece e permanecerá irrecuperável. Esta será entao,
de acordo com o ponto 2, reconstruída.
Analisando o método
que a arqueologia usa para esta reconstrução, creio poder
reconhecer duas etapas: na primeira, que chamei de "Construção
do Objeto Arqueológico", creio poder explicar como que um objeto
real será substituído por um ícone (creio ser esta
a tradução portuguesa do termo técnico "icon", tal
como ele é usado em Semiótica) e então em uma etapa
posterior, que chamei de "Produção do Discurso Arqueológico",
creio poder mostrar como que estes ícones serão usados como
índex de comportamentos sociais das populações pré-históricas.
Esta "produção
do discurso arqueológico" se dá através de dois processos:
através do processo da livre dedução e através
do processo de dedução acoplada. A diferenca é que
nesta segunda se considera o binômio espaço-tempo enquanto
que a primeira o ignora completamente. Um exemplo de dedução
livre é a a conotação entre prestígio social
e oferendas mortuárias que Garcia e Uchoa pretendem estabelecer
(GARCIA ET UCHOA 1980,77). Exemplo de dedução acoplada são
as tentativas de se estabelecer o areal ocupado por uma cultura através
de elementos formais e/ou decorativos (p.e. RÜTHSCHLILLING 1984).
Analisando os resultados
das deduções da arqueologia brasileira pode-se dizerque esta
pode ser classificada como uma arqueologia colonialista, na classificação
de Trigger (TRIGGER 1984). Isto significa que a arqueologia brasileira
serve indiretamente para justificar as reivindicações de
uma parte da população brasileira: da população
branca. Isto pode ser comprovado pois:
- demonstrando a pobreza tecnológica das
populações pré-cabralinas (a arqueologia brasileira
ressalta indiretamente o direito, talvez até o dever, que populações
tecnologicamente mais capazes têm sobre os recursos naturais (HEREDIA
ET BELTRAO 1980; MASI ET ARTUSI 1985);
- o destaque que o extermínio de populações
tecnologicamente menos avancadas recebe dentro da arqueologia brasileira
serve para justificar o genocídio da população indígena
transformando-o num fenômeno quase natural (MADERSBACHER 1971; SCHMITZ
1981).
Assim sendo, a Etnohistória,
usando os resultados da arqueologia brasileira, iria apenas reproduzir
os preconceitos que esta proclama.
Aqui, deve a Etnohistória
procurar desvendar as "gramáticas de objetos" que as populações
pré-históricas usaram, caso isto ainda seja possível,
usando o conhecimento dos indivíduos que vivem ainda hoje em uma
tradição cultural, na qual alguns resquícios daquelas
tradições ainda existem. Apenas a partir desta perspectiva
se pode ter uma pequena chama de esperança que as deduções
da arqueologia vão refletir a vida cotidiana e o desenvolvimento
socio-cultural das populações pré-históricas.
Se tal projeto pudesse tornar-se
realidade, a Etnohisória teria contribuído para enriquecer
o já imenso tesouro da experiência cultural humana.
Resumo:
Provavelmente a pesca é
uma atividade tão antiga quanto a caça. Porém, as
evidências materiais dessa atividade são de difícil
preservação no registro arqueológico. A partir de
finais do Paleolítico Superior, essas evidências tornam-se
mais concretas, possibilitando um estudo da temática pesca, de modo
a inseri-la no contexto de populações pré-históricas.
A partir da compreensão
dos processos relacionados à pesca, foi realizado um estudo do conhecimento
necessário ao homem para exercer essa atividade e das técnicas
necessárias à exploração desses recursos, sendo
o enfoque centralizado nos artefatos e no conhecimento do meio circundante.
Os dados referentes à
pesca são sistematizados para o Brasil, possibilitando uma análise
ampla desta atividade, já bastante desenvolvida quando da chegada
dos colonizadores europeus.
PALAVRAS-CHAVE: Pré-história, pesca, técnicas, artefatos, armadilhas, anzóis, litoral, Europa, Brasil.