Arqueologia em Conexão (7) "Util. de Lar. de Coleop. (DERMESTÍDEOS) na montagem col. Osteológicas", FRANCO, T.C. B.; BARBOSA, D. R; SANTOS, R. S.,
Arqueologia em Conexão
Número 7, setembro, 2001

Textos Científicos (Um mergulho na pesquisa)


UTILIZAÇÃO DE LARVAS DE COLEÓPTEROS (DERMESTÍDEOS) NA PREPARAÇÃO DE MATERIAL OSTEOLÓGICO.


Teresa Cristina de B. FRANCO
    Dep. de Meio Ambiente - FURNAS/DMA.T
Débora R. BARBOSA
     Dep. de Antropologia do Museu Nacional - UFRJ
Rubens da Silva SANTOS
    Professor Titular da UERJ e Pesquisador do CNPq

 

Este artigo foi apresentado na VII Reunião da Sociedade de Arqueologia Brasileira no ano de 1993. Sua retomada para publicação é uma homenagem ao prof. Rubens da Silva Santos falecido em 1998.


 
 

O presente trabalho surge da necessidade de compreender, de maneira específica, as formas de adaptação das populações pré-históricas a ambientes costeiros, tendo especialmente como subsídio, material faunístico proveniente de escavações arqueológicas.

As escavações desenvolvidas através do projeto "O Aproveitamento Ambiental das Populações Pré-históricas do Estado do Rio de Janeiro", iniciado em 1982 coordenado, então, pelo Dr. Osvaldo Heredia (atualmente sob coordenação da profª. Maria Dulce Gaspar) do Departamento de Antropologia do Museu Nacional do Rio de Janeiro – UFRJ e financiado pelo FINEP, resultaram numa quantidade significativa de material faunístico que até então permanecia sem identificação pela falta de um método adequado ao seu estudo.

A identificação do material ósseo de fauna oriundo de escavações arqueológicas e consistindo de restos de animais sub-recentes, tem como metodologia básica, a anatomia comparada. Por isto, utiliza-se para este estudo comparativo, esqueletos de animais atuais, principalmente daqueles grupos cujos nichos ecológicos incluem os ambientes onde se localizam os sítios pesquisados.

A diversidade taxonômica encontrada nos sítios arqueológicos, principalmente aqueles situados em ambientes litorâneos, assim como a necessidade de manuseio constante do material faunístico são algumas das dificuldades enfrentadas por zooarqueólogos quando precisam identificar e tirar suas conclusões sobre o material ósseo de fauna. Nesse sentido, os arqueólogos vêm preferindo preparar suas próprias coleções osteológicas para os referidos estudos comparativos.

As populações pré-históricas que habitavam as zonas litorâneas tinham no consumo dos peixes, uma das bases da dieta alimentar como atesta a predominância de restos desses vertebrados entre o material encontrado nos referidos sítios. Portanto, há necessidade de se ter esqueletos preparados desse grupo de animais, principalmente das espécies que habitam os diversos habitats marinhos, e mesmo os de água doce, procedentes das proximidades dos sítios arqueológicos pesquisados. O ideal é possuir dois esqueletos preparados de cada espécie, um articulado e outro desarticulado. O primeiro, no sentido de fornecer dados referentes a posição e inter-relação dos ossos e o segundo de possibilitar o manuseio dos ossos isolados verificando particularidades anatômicas. Com relação a isto, convém salientar que a maioria das peças ósseas encontradas nos sítios arqueológicos são fragmentadas e, às vezes, sua identificação se faz por algum pequeno detalhe das partes que se articulam, pela presença de algum forâmen para passagem de um nervo, de vasos sangüíneos ou mesmo pela presença de algum apêndice ou saliência óssea.

AS TÉCNICAS DE PREPARAÇÃO

Tratando-se de peixes, a preparação dos esqueletos não é tão simples, considerando-se a complexidade estrutural óssea desses vertebrados, as proporções, às vezes, diminutas dos componentes ósseos e a sua fragilidade. Os processos de preparação mais usuais como a maceração em água fervente e o uso de substâncias cáustica não atinge as necessidades, visto que geralmente desarticulam os esqueletos e com isso muitas informações anatômicas ( proporções relativas, posição dos componentes esqueletais entre sí, como no caso dos elementos vertebrais ) se perdem. O processo de coloração pela alizarina é impraticável quando se tratam de exemplares de grande porte. A preparação manual com uso de pinças, pequenas tesouras, bisturis, etc, pode ser utilizada, mas despende muito tempo e nunca se consegue uma limpeza perfeita especialmente com relação aos ossos do esqueleto cefálico. A escolha então, recai sobre o uso dos coleópteros de hábitos carnívoros do gênero Dermestes, fáceis de obter e de conservar suas populações em caixas cuidadosamente fechadas e ventiladas. A preparação com insetos coleópteros tem maiores vantagens do que com os processos acima enumerados, em vista de manter os esqueletos articulados. As larvas, na limpeza dos ossos, podem facilmente atingir regiões do esqueleto de difícil acesso, como a região craniana, deixando todos os componentes ósseos limpos e bem visíveis. Com esse processo pode-se preparar exemplares de todos os tamanhos possíveis.

Dependendo das populações que se tenha desses coleópteros, a preparação de um peixe de mais ou menos trinta a quarenta centímetros de comprimento pode ser feita em cerca de cinco dias. Outra vantagem do processo é que se pode manter todas as séries de escamas perfeitamente imbricadas de um dos lados do exemplar, mantendo assim a morfologia do corpo e, às vezes, a sua coloração que auxiliam na identificação quando esta não pode ser feita no momento em que o exemplar é exposto à preparação.

I. CUIDADOS PRELIMINARES COM OS EXEMPLARES

Tratando-se de exemplar fresco a ser preparado, este deve ficar cerca de sete a oito dias fixado em álcool a 70%. É conveniente retirar as vísceras antes de coloca-lo no álcool, bem como a epiderme com as escamas de um dos lados do corpo, de modo a se ter após a preparação, todo o esqueleto visível, inclusive as peças ósseas que sustentam internamente os raios das nadadeiras.

O exemplar poderia deixar de ser fixado em álcool e colocado imediatamente aos Dermestes porém, há o inconveniente de ficar exposto também a moscas cujos ovos colocados sobre o mesmo, dão origem à vermes de natureza viscosa, que não só iriam competir com as larvas dos dermestídeos, mas prejudicariam também a preparação deixando os ossos escurecidos devido ao mucus que eliminam durante os estádios de desenvolvimento.

Após o período de fixação, retira-se o peixe do álcool deixando-o em água corrente por algumas horas para eliminar algum resto do fixador. A seguir, o exemplar é exposto ao ar, afim de retirar os odores do álcool e secar um pouco os tecidos musculares. Esta secagem não deve ser feita diretamente sob o sol.

II. A CAIXA DE PREPARAÇÃO

A caixa ou recipiente onde o exemplar vai ser exposto aos Dermestes pode ser de material diverso: madeira, alumínio ou mesmo vidro, como se fosse um aquário. A tampa pode ser de madeira com uma abertura coberta por uma tela fina de nylon de modo a ventilar e evitar a fuga dos insetos. As paredes internas dessa caixa podem ser pintadas com tinta preta ou azul escuro, de forma a reproduzir tanto quanto possível, as condições ambientais em que esses insetos são encontrados no campo, sempre dentro de cadáveres de animais, protegidos da claridade solar e alimentando-se da carne em decomposição. No fundo do recipiente é conveniente colocar uma camada de algodão de uns dois centímetros de espessura, que ajudará a manter um pouco de calor e umidade no ambiente, servindo também como uma espécie de ninho para os coleópteros. Alguns tipos de dermestídeos podem ser utilizados para a preparação de esqueletos de animais. Utilizamos a espécie - Dermestes maculatus De Geer, 1774, cujas larvas atingem cerca de 10 milímetros de comprimento.

O tempo de permanência dos exemplares sob a ação dos Dermestes, depende das condições da colônia em termos de número de larvas. O ciclo biológico de Dermestes maculatus De Geer, 1774 estende-se por aproximadamente sessenta dias, dos quais dez em condição de pupa e onze em estágios de larvas.

É necessário acompanhar o processo, no sentido de controlar a atividade das larvas impedindo que por falta de alimento, passem a destruir a cartilagem das extremidades dos ossos e os ligamentos que os mantém articulados. Deve-se evitar a proliferação de certos aracnídeos na caixa dos Dermestes, que verificou-se constituírem-se em sérios predadores dos coleópteros, principalmente de suas larvas.

Quando o esqueleto estiver completamente descarnado, retira-se o exemplar. Para evitar que algumas larvas que tenham se infiltrado na caixa craniana ou em outra parte do esqueleto fiquem em liberdade e venham causar algum dano, coloca-se o exemplar já preparado em um saco plástico juntamente com um pedaço de algodão embebido em éter, afim de matá-los. O poder destruidor dos Dermestes tem sido a razão de muitos museus não usarem estes coleópteros na preparação de esqueletos, pois temem que os mesmos ou suas larvas, possam se libertar invadindo armários com coleções de peles, animais embalsamados, etc.. Alguns museus evitam isto, colocando as caixas com as populações de Dermestes em ambientes resguardados ou isolados e longe das coleções zoológicas, bibliotecas, etc..

III. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A utilização das larvas de Dermestes, constitui-se no método mais prático na preparação de coleções osteológicas visando a comparação com o material ósseo proveniente de escavações arqueológicas. A identificação desse material do ponto de vista anatômico e taxinômico, permitirá o desenvolvimento de temas importantes em arqueologia como o estabelecimento dos diferentes tipos de animais utilizados na dieta alimentar das populações pré-históricas, a determinação e o estudo da tecnologia empregado na pesca e caça e mesmo, para a delimitação das áreas de captação de recursos. Esse material faunístico permite, ainda, analisar as condições ecológicas que prevaleceram na região durante a época de ocupação das populações pré-históricas aí se estabeleceram.

 

BIBLIOGRAFIA:

Flannery, Kent V.

1976. "The Early Mesoamerican Village". Academic Press, New York.

Lepesme,P.

1944. "Les Coléoptéres des denrées Alimentaires et des Produits Industriels Entreposés". Paul Lechevalier, Éditeur Encyclopédie Entomologique, série A XXII.

Sarmiento, Julia A. V. & Alzuet, Alcira D. B.

1965. "Insectos y Otros Artropodos que Atacan Productos Elaborados y Almacenados de Origem Animal". Universidad Nacional de la Plata, Facultad de Ciencias Naturales y Museo, Revista del Museo de La Plata. Tomo VIII, Zoologia N. 59.

Costa Lima, A. da.

1953. "Insetos do Brasil". 8 Tomo, Capítulo XXIX, 2 Parte. 323-p. ilust. Série didática nº 10. Rio de Janeiro.

 

AGRADECIMENTOS:

- A Diretora do Instituto de Biologia da UERJ, Professora Marly Cruz Veiga da Silva e a Chefia do DBAV, que permitiu o manuseio das coleções ictiológicas desse Departamento.

- Aos pesquisadores Sandra M. D. Delfino e Paulo R. Magno do Departamento de Entomologia do Museu Nacional, pela identificação do dermestídeo.

Para voltar ao portal de Arqueologia em Conexão.