Origem em um único ponto e difusão ou vários centros independentes de domesticação?
Os registros paleontológicos sugerem que no mundo biológico as mudanças não ocorrem por si mesmas mas como resultado de pressões seletivas que necessitam modificações na parte da população envolvida. Se, como indica o registro arqueológico, caça e pesca foi um bem sucedido modo de adaptação por um longo período de tempo e se maioria das populações humanas é de fato conservadora, por que esta forma de adaptação foi abandonada?
Segundo Gordon Childe foi o resultado de transformações climáticas no Holoceno inicial (por volta de 10.000 anos), uma resposta de adaptação ao clima, que possibilitou a revolução de produção de alimentos, envolvendo uma reorganização massiva da tecnologia, resultando um período de rápido crescimento populacional com reorganização das instituições sociais.
Para Braidwood, foi o resultado de um processo natural da evolução cultural de experiências acumuladas por caçadores-coletores. As populações tinham condições culturais para o desenvolvimento, já que a familiaridade e observação das espécies vegetais selvagens possibilitaram a domesticação, possibilitando significantes e óbvias vantagens econômicas para as populações humanas. Muita ênfase foi dada para traçar a história dos padrões evolucionistas e identificar o tempo, lugar e prováveis circunstâncias em que a agricultura primeiro surgiu. Mas pouca atenção foi dada para saber por que agricultura foi adotada como estratégia econômica em lugar da caça e coleta.
Flannery enfatiza que a agricultura é a base das sociedades já que possibilitaria maior independência alimentar e demográfica a partir do momento em que foram capazes de domesticar outros vegetais.
Para Flannery e MacNeish, o desenvolvimento da agricultura está ligado a uma rede geográfica regional envolvendo padrões de assentamento humanos e não concentração em sítios locais individuais. Revolução agrícola envolve mudanças progressivas na distribuição de populações humanas sobre uma paisagem de microambientes variáveis. É um processo, não um evento. A agricultura deve ser vista como modificação dos padrões de comportamento sistemático ligando o homem e seus recursos e avaliar os fatores que interagem para modificar estes sistemas. Não é mais suficiente saber onde ou quando a agricultura foi descoberta; é essencial explicar como e por que os padrões de comportamento foram modificados.
Para Flannery e Binford é importante o stress ou desequilíbrio como fator causativo e aplicaram este conceito com uma bem definida rede de variáveis interativas. Binford sugere que o aumento demográfico incentivaria a busca de novas alternativas alimentares.
Há um consenso sobre uma série de elementos indispensáveis como pré-requisitos para que a agricultura surgisse em diferentes pontos no mundo. A importância das mudanças climatológicas que ocorreram no Holoceno antigo e médio, mudanças ecológicas que provocaram, principalmente no litoral, o desenvolvimento de espécies animais que se constituíram em excelentes fontes de proteínas para as populações, e para o interior, o aumento das florestas, que foram, por sua vez, mais fontes de alimentos. Assim, tanto na orla marítima quanto nas zonas florestais, a abundância de recursos propiciou um crescimento demográfico nas comunidades de caçadores-coletores, fenômeno altamente estimulante já que propiciou um mais rápido esgotamento dos recursos naturais, forçando a procura de elementos alternativos, sobretudo na técnica do aprovisionamento grupal dietas equilibradas e sistemáticas servindo de base para a manutenção das comunidades e possibilitando o desenvolvimento de novos padrões alimentares, a partir de espécimes que melhor correspondessem à manipulação humana.
Somente nos últimos 10.000 anos é que começou a domesticar plantas e animais.
Onde teria se originado a agricultura?
As informações disponíveis nos falam de origens diferentes, seja pela resposta a uma necessidade de sobrevivência dos diferentes grupos humanos, seja pela maior segurança que poderia proporcionar, diferente das aleatórias atividades de coleta anteriormente utilizadas. Seja qual for a origem do processo de domesticação (difusão ou invenção independente), o que importa é o efeito que ela exerceu sobre uma determinada formação social, ou seja, de que maneira teria afetado a estrutura da sociedade.
Apesar de as evidências em algumas regiões (Andes, por exemplo) assinalarem a possibilidade de existência de assentamentos estáveis (tipo aldeia) sobre bases não agrícolas (base marinha, riqueza do mar peruano), também é possível constatar que apenas quando este tipo de assentamento se enriquece com os avanços da agricultura (centro andino) é possível alcançar o volume e a dinâmica necessários para atingir o nível de civilização.
Falar sobre a origem da agricultura requer dificuldades resultantes da limitação em pesquisas arqueológicas, tanto sob o ponto de vista quantitativo quanto qualitativo, além das diferentes condições de preservação. É importante considerar as condições específicas de cada região: a deserta costa oeste sul americana (costa do Peru, Chile) tem excelente capacidade de preservação, situação inversa da Amazônia onde a preservação de restos orgânicos é extremamente precária. Este fato resulta na obtenção de dados, muitas vezes, destorcidos sobre a origem e desenvolvimento da domesticação de plantas.
Os mais remotos vestígios de atividade agrícola são encontrados não nas matas, apesar de as florestas equatoriais e tropicais serem pródigas em frutos, sementes, raízes, seivas, flores, madeiras, fibras onde o homem encontrou alimentos e materiais para seus utensílios. Esse ambiente não era propício à atividade agrícola, pela dificuldade com os instrumentos disponíveis (machados de pedra) para abater árvores e preparar um campo de cultivo. Desta forma, os mais antigos vestígios de atividade agrícola são encontrados em zonas de transição, onde as condições ecológicas eram favoráveis. Em alguns lugares, como na região andina, é possível observar um meio ambiente de caráter variado e uma relação estreita costa-serra-selva, com suas várzeas de solos férteis, enriquecidas periodicamente pela deposição de aluviões nas enchentes, oásis dispondo de água, de solos ricos em sais minerais, PH neutro. Nessas zonas, além dos produtos que o homem já conhecia de sua atividade coletora nas matas, encontrava os cereais nativos das áreas de vegetação aberta.
A agricultura teria sido obtida de forma gradativa, nas sociedades de bando, onde as mulheres tinham o encargo de coletar sementes. Elas teriam observado a germinação e épocas determinadas de crescimento. Daí teria surgido a idéia básica, situação difícil de provar sob o ponto de vista arqueológico, mas informações etnográficas permitem fazer inferências a esse propósito.