Textos Científicos (um mergulho na pesquisa)
Laboratoire de Paléoenvironnements,
Anthracologie et Action de l'Homme,
Université de Montpellier II (França)
e-mail: scheel@crit.univ-montp2.fr
Introdução:
Antracologia é
o estudo e interpretação dos restos de madeira carbonizados
provenientes de sítios arqueológicos ou de solos, onde eles
estão relacionados ao testemunho de paleoincêndios, naturais
ou de origem antrópica, ou a diversos aspectos da atividade humana
(Scheel et al., 1996a, 1996b). A identificação de espécies
a partir de material carbonizado, em si, é bastante antiga (Heer,
1866; Prejawa, 1896; Breuil, 1903 - apud Badal Garcia, 1992), mas o método
de trabalho utilizado na época, a partir de lâminas finas,
era lento e difícil, e as pesquisas não tinham ainda um caráter
paleoambiental. Apenas mais recentemente a utilização da
microscopia de luz refletida (Western, 1963, 1971; Vernet, 1973, 1974)
permitiu a multiplicação das análises antracológicas,
facilitando o estudo dos carvões e propiciando o surgimento de abordagens
paleoecológicas.
A análise antracológica
pode fornecer duas perspectivas importantes:
- etnoarqueológica: indica os usos que a população
pré-histórica fazia da vegetação local, seja
como combustível (calor, preparação de alimentos etc.),
seja para a confecção de artefatos de madeira (habitação,
utensílios, embarcações etc.).
- paleoecológica: indica o tipo de vegetação
existente em torno do sítio arqueológico ou do local de coleta.
Esta segunda perspectiva
objetiva a reconstituição do ambiente vegetal em um dado
local e numa época determinada e, por dedução, do
clima. Associada à ocupação humana, esta análise
permite visualizar tanto as relações entre o homem e seu
meio ambiente como o impacto antrópico exercido.
Metodologia:
O trabalho do antracólogo
compreende duas etapas: uma etapa de campo e uma de laboratório.
No campo, é
analisado o modo de depósito dos carvões e é feita
a coleta deste material, geralmente a partir de peneiragem do sedimento
arqueológico ou do solo. Em sítios arqueológicos,
pode-se selecionar durante a escavação os sedimentos onde
o carvão é mais visível ou, de preferência,
definir uma malha de amostragem, eventualmente aleatória. Qualquer
que seja o método empregado, a superfície do sítio
deve ser amostrada o mais amplamente possível, para cada nível
estratigráfico, pois um estudo qualitativa e quantitativamente confiável
só é possível se é analisado um grande número
de carvões para cada estrato. No caso de solos a coleta é
feita ao longo de perfis, por decapagem de camadas sucessivas. Nos dois
casos, é fundamental que todos os fragmentos de carvão retidos
pela peneira sejam coletados, pois se houver uma seleção
das peças maiores, e/ou mais bem conservadas, será introduzido
um elemento de escolha subjetiva que acarretará posteriormente em
erros de interpretação.
De um modo geral, três métodos de recuperação dos carvões podem ser utilizados (Badal et al., 1989; Figueiral, 1992):
1. recolhida manual exaustiva dos carvões, quando maiores que
5 mm (método fortemente desaconselhado, que deve ser empregado somente
quando outras alternativas não são possíveis);
2. peneiragem com água ou a seco do sedimento;
3. flotação.
A flotação
é o método que implica em menor esforço metodológico
e maior eficiência. Os fragmentos de carvão sendo de pequenas
dimensões e muito leves, sua capacidade de flutuação
pode ser aproveitada para separá-los do material mais pesado, sendo
possível além disso a recuperação exaustiva
de numerosos outros restos, úteis a outras disciplinas (sementes,
moluscos, micro-fauna etc.). O princípio de funcionamento de uma
“célula de flotação” é bastante simples. Consiste
em lavar o sedimento, depositado em uma peneira submersa numa cuba, em
uma corrente de água turbilhonante. Os carvões, liberados
do sedimento, são levados à superfície da água
e em direção à periferia da cuba, caindo sobre uma
peneira de malha fina onde os elementos sólidos são recuperados
(Ybert et al., 1997).
Idealmente, a amostragem
deve ser feita utilizando-se peneiras de malha de 4 mm. Ainda que a identificação
botânica dos carvões seja possível mesmo em fragmentos
de 0,5 mm de lado, especialmente no caso de gimnospermas (Vernet et al.,
1979), em fragmentos tão pequenos ela é longa, difícil,
e em geral improdutiva. No que se refere à identificação
de carvões tropicais, fragmentos cujo lado maior é inferior
a 4 mm são muito dificilmente identificáveis.
A peneiragem de amostras
do sedimento proveniente da escavação é importante
porque embora os carvões concentrados (fogueiras e depósitos
associados) sejam os mais visíveis na escavação, as
camadas arqueológicas apresentam frequentemente, no conjunto de
sua superfície e espessura, carvões dispersos, nem sempre
visíveis, mas que em geral revelam-se abundantes (Chabal, 1988,
1991; Heinz, 1990). Estes últimos são provenientes da dispersão
do material de fogões ou fogueiras, e por estarem geralmente presentes
em todos os níveis arqueológicos, eles podem fornecer os
dados paleoambientais mais confiáveis. O estudo dos carvões
concentrados, por outro lado, fornece principalmente informações
etnológicas. As fogueiras são geralmente raras e só
podem ser estudadas de forma pontual, embora o seu conteúdo taxonômico
se assemelhe ao que é encontrado nos carvões dispersos (Scheel-Ybert
1998).
Um outro aspecto importante
a considerar é que todo estudo antracológico necessita de
um bom conhecimento da flora e vegetação características
da área geográfica onde se situa a área de estudo.
Devem ser observados também o tipo de solo, os cursos d’água
nas proximidades, o grau de utilização antrópica etc.
O antracólogo deve proceder sistematicamente a coletas de madeira
atual para a coleção de referência, tanto nos arredores
do sítio quanto em formações vegetais semelhantes.
A coleta deve incluir amostras de herbário, para identificação,
além das anotações de campo tradicionais.
No laboratório,
os carvões são observados em um microscópio óptico
de luz refletida a partir da simples quebra manual dos fragmentos em três
planos (transversal, longitudinal tangencial e longitudinal radial). Observações
em microscópio eletrônico de varredura podem ser feitas posteriormente,
se isto é possível. Este é o principal método
utilizado para a representação fotográfica das amostras.
Orientação dos três planos anatômicos da
madeira em relação ao eixo de um tronco.
![]() Plano transversal |
![]() Plano longitudinal tangencial |
![]() Plano longitudinal radial |
A determinação botânica dos carvões é feita com base na estrutura anatômica da madeira, a qual é comparada a uma coleção de referência contendo amostras atuais carbonizadas e a descrições e fotografias de obras de referência (Détienne & Jacquet 1983; Mainieri & Chimelo 1989; Metcalfe & Chalk 1950 etc.). A diversidade da flora brasileira sendo extremamente grande, e a anatomia da madeira sendo ainda desconhecida para a maior parte das espécies, a utilização de uma coleção de referência é indispensável. Além disso, a utilização de um programa informático de determinação, associado a um banco de dados anatômicos contendo informações sobre a anatomia da madeira de espécies atuais e fósseis é uma ferramenta imprescindível para a análise antracológica.
Microfotografias de carvão atual em microscópio eletrônico de varredura.
plano transversal
pl. longitudinal tangencial pl. longitudinal radial
plano transversal
pl. longitudinal tangencial pl. longitudinal radial
Como nenhum tratamento
químico é efetuado, é possível obter-se, após
a determinação anatômica, uma datação
de 14C no mesmo fragmento (Vernet et al., 1979). Isto é particularmente
útil quando a quantidade de carvões coletada na escavação
é pequena, e é muito interessante pois um único material
pode fornecer diversas informações preciosas aos arqueólogos:
sua idade absoluta, indícios sobre a vegetação circundante
ao sítio na época de ocupação e informações
sobre a relação dos povos pré-históricos com
o seu meio ambiente vegetal.
Discussão:
Estudos paleoecológicos, e não apenas etnológicos, que se baseiam em carvões de origem arqueológica ainda suscitam, aos olhos da comunidade científica, uma série de dúvidas. Via de regra, acredita-se que cada cultura selecionava as madeiras apanhadas, já que o transporte da madeira do ambiente até o local de depósito (o sítio arqueológico) é, evidentemente, obra humana. No entanto, diversos argumentos suportam a coerência paleoecológica dos estudos antracológicos, ou seja, confirmam que os espectros antracológicos são um reflexo confiável da vegetação existente na época. Entre eles, podemos citar (Vernet, 1977; Chabal, 1988, 1992, 1997; Scheel-Ybert, 1998):
1. a grande riqueza de taxa encontrada nas análises de sedimentos
contendo carvões;
2. a semelhança entre espectros antracológicos e formas
de vegetação atuais;
3. a possibilidade de reprodução das observações
e a concordância entre diferentes estudos antracológicos;
4. a boa correlação entre diagramas antracológicos
e diagramas palinológicos da mesma região, estes últimos
obtidos a partir de sedimentos de lagos ou de turfeiras, que recebem uma
chuva polínica natural.
Estes argumentos permitem
considerar os restos de carvão como uma boa amostra da vegetação,
o que significa que, para uso doméstico, as populações
recolhiam, durante o período de ocupação do sítio,
praticamente toda a madeira disponível encontrada, sem selecioná-la
(Vernet, 1973, 1977; Chabal, 1992, 1997).
Naturalmente, a madeira
utilizada para fins específicos devia ser fortemente selecionada
entre as espécies disponíveis (material de construção,
objetos manufaturados ou combustíveis de utilização
especial, p. ex. cerâmica, metalurgia etc.). Os restos vegetais destas
atividades não permitem de forma alguma uma boa representação
do ambiente circundante ao sítio, mas podem fornecer excelentes
informações paleoetnológicas.
Conclusões:
A antracologia é
uma disciplina nova no Brasil. Ela pode oferecer à arqueologia resultados
muito promissores, principalmente no esclarecimento de questões
relacionadas ao entorno da área de habitação e à
área de captação de recursos. A análise antracológica
é particularmente útil se quisermos compreender as relações
entre cultura e meio ambiente na pré-história, até
a época atual, informação que interessa particularmente
aos arqueólogos, cujas pesquisas mais recentes se voltam cada vez
mais para os aspectos sócio-culturais e ambientais dos sítios.
Da mesma forma que
outras disciplinas, como a palinologia, a antracologia permite uma excelente
aproximação ecocronológica da flora e vegetação
passadas e permite seguir a evolução da estrutura vegetacional,
e portanto do clima, sendo frequentemente possível avaliar-se as
causas deste processo. Antracologia e palinologia são disciplinas
paralelas e complementares, e sua avaliação conjunta pode
aportar importantes informações paleoecológicas.
A posição
da Antracologia, entre as ciências humanas e as ciências naturais,
implica forte interdisciplinaridade. Não se trata, entretanto, de
apenas mais uma técnica auxiliar, mas sim de uma nova disciplina
que pode trazer uma série de informações, úteis
para as várias ciências a ela relacionadas.
Referências Bibliográficas:
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Détienne, P. & Jacquet, P. 1983. Atlas d'identification des bois de l'Amazonie et des régions voisines. Centre Téchnique Forestier Tropical, France. 640 p.
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Metcalfe, C.R. & Chalk, C. 1950. Anatomy of the dicotyledons. 2 volumes. Oxford, Clarendon Press. 1500 p.
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Vernet, J.-L. 1977. Les macrofossiles végétaux et la paléoécologie du Pléistocène. In: Approche écologique de l'homme fossile. Bull. de l'Assoc. Fr. pour l'étude du Quaternaire, suppl. H. Laville & J. Renault-Miskovski (eds.). p. 53-55.
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Western, C. 1971. The ecological interpretation of ancient charcoals from Jericho. Levant 3: 31-40.
Ybert, J.P.; Scheel, R. & Gaspar, M.D. 1997. Descrição
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ou pedológica. Rev. Mus. Arqueol. Etnol., São Paulo, 7: 181-189.
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